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terça-feira, 9 de julho de 2013

Artigo: A idade do crime: o paradoxo da violência contra a juventude e a redução da maioridade penal

A idade do crime: o paradoxo da violência contra a juventude e a redução da maioridade penal


“A violência se liberou de qualquer fundamento ideológico” Hans M. Enzensberger

Ao mesmo tempo em que a grande mídia e seus pseudo- especialistas tentam pautar uma discussão sobre o encarceramento de jovens e adolescentes em cadeias comuns e a redução da idade mínima para serem julgados como criminosos adultos, o país passa por um período de sangrenta guerra que vem, ilegitimamente, exterminando sua juventude.
A violência urbana, enquanto representação simbólica da realidade em que estamos imersos, hoje se encontra num constante processo de assimilação como prática comum nas relações sociais. Ao mesmo tempo, a mídia apresenta a violência como espetáculo e como verdadeira paranoia, como se todos os ambientes, se todas as cidades, se todos os espaços, principalmente públicos, fossem espaços violentos. Percebe-se aí a tentativa de uma construção hegemônica de estabelecer a ordem social como forma de vida constituída pelo uso da força como princípio organizador das relações sociais. Todo e qualquer questionamento à “ordem social” hegemonicamente estabelecido deve ser combatido com uso da força. Neste jogo de “cabo de guerra”, a face mais visível e, ao mesmo tempo, mais vulnerável é a juventude brasileira. Nesta conjuntura, onde estão inseridos os aparelhos estatais de controle social? Onde se insere o debate pela implementação e efetivação de políticas públicas? Há que se considerar uma verdadeira reorganização das agencias da ordem estatal, a relação destas com a sociedade civil e a formulação e implementação de políticas mais democráticas de segurança pública.
Se alastram pelo país iniciativas de leis municipais que privam os jovens e adolescentes do uso do espaço público. Chamada de “toque de recolher”, a lei limita os adolescentes e jovens de ocuparem os espaços públicos. Mais de 90% dos casos de violência contra jovens e adolescentes são cometidos em casa, muitas vezes protagonizados pelos próprios pais ou parentes próprios. Ou seja, no ambiente privado, própria casa, é que a maioria dos crimes acontecem. Porque, então,o espaço público deve ter restrição de uso? A lei do toque de recolher torna-se, então, um atestado de incompetência do estado, através de seus gestores, que afirmam não ser capazes de tornar seguros os espaços públicos. É a privatização destes espaços.
Já o índice de homicídios na adolescência e juventude vem aumentando a cada ano. Ousamos dizer que é um verdadeiro extermínio da juventude brasileira. No Brasil, a possibilidade de um jovem ser vítima de um homicídio é em média 30 vezes maior que na Europa e 70 vezes maior que na Grécia, Hungria e Inglaterra. Os homicídios, no Brasil, têm idade, raça, classe social e gênero: são jovens, negros, pobres e homens. No período de 1996 a 2006, a taxa de homicídio entre a população em geral cresceu 20%. Na população jovem este índice foi de 31%. Se considerarmos os jovens negros, este índice é ainda maior.
Segundo o relatório do IHA (índice de homicídios na adolescência), pesquisa realizada pela UNICEF, 45% das mortes de adolescentes e jovens na faixa etária de 12 a 18 anos são por homicídio, ou seja, quase metade da juventude que está morrendo é vítima da violência direta, morte por arma de fogo. Comparado a 83 países o país ocupa o 5º lugar na taxa de homicídios juvenis.
Neste contexto em que a juventude vem sendo, verdadeiramente, exterminada, um outro movimento toma força. O debate da redução da maioridade penal. Um dos argumentos é a impunidade do ECA (Estatuto da Criança e Adolescente) que prevê, no máximo, três anos de recolhimento em centros de sócio-educação e outras medidas de acompanhamento.
A maioria dos condenados por homicídio qualificado pelo STJ (Superior Tribunal de Justiça) recebe como pena cerca de 12 anos de condenação. Pela legislação atual, se o condenado tiver bom comportamento poderá cumprir a pena em regime aberto após o 2º ano de prisão. Ou seja, o adulto condenado por homicídio qualificado cumpre uma pena menor que o adolescente. Outro dado importante diz respeito ao índice de crimes cometidos por jovens e adolescentes no país: 1,7%. O estado onde este índice é mais alarmante é o de São Paulo, aonde o índice não chega a 4%.
Há que se estabelecer um debate aprofundado acerca do tema, com a análise destes e de outros dados como, por exemplo, o volume de recursos que o estado vem investindo no que diz respeito a políticas públicas para a juventude. Se há falta de investimento em políticas públicas para que estes jovens e adolescentes não venham cometer crimes, quem é o verdadeiro vilão da história? Vamos combater as causas da violência ou continuar punindo os verdadeiros inocentes no processo?




Luiz Fernando Rodrigues é funcionário da educação pública do Paraná e secretário de juventude da CUT-PR.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Pastoral da Juventude realizará Seminário da Campanha Nacional contra a violência e extermínio de jovens

Atividade acontece em Taguatinga (DF) e reúne cerca de 200 jovens de todas as regiões do país.




A Pastoral da Juventude (PJ) realiza, de 03 a 05 de maio, no Colégio Marista Champagnat, em Taguatinga (DF), o Seminário da Campanha Nacional Contra a Violência e Extermínio de Jovens em todo o território brasileiro. A atividade reúne, aproximadamente, 200 jovens do Brasil e tem por objetivo criar espaço de conscientização e formação de agentes multiplicadores.

Os dias do seminário são dedicados ao aprofundamento e formação dos jovens em diversos temas acerca do extermínio e violência juvenil, dentre eles: redução da maioridade penal, segurança pública, educação, trabalho, violência e uso de drogas, aprisionamento e cárcere, tráfico humano: prostituição e trabalho escravo.

O secretário nacional da Pastoral da Juventude, Thiesco Crisóstomo, destaca o seminário como importante passo da PJ na construção da campanha e no enfrentamento da violência contra a juventude no Brasil. “Queremos dar força a temas específicos como a redução da maioridade penal, o tráfico humano e as medidas socioeducativas. Dialogar diretamente com os jovens que constroem o dia a dia da Campanha, nos municípios e estados, além dos parceiros firmados ao longo destes quatro anos”, afirmou Crisóstomo.

A atividade tem ainda como objetivos específicos o engajamento e fortalecimento dos grupos de base para a Campanha Nacional contra violência e o extermínio de jovens; o estabelecimento de diálogo entre os jovens da Pastoral da Juventude com outros atores envolvidos na temática da violência contra a juventude; o fomento da juventude e a comunidade, para que se tornem aptos em continuar os trabalhos para a realização dos objetivos do Seminário; a potencialização da ação realizada pelos jovens multiplicadores como agentes de mudança da realidade de violência em que estão inseridos; e a capacitação técnica e metodológica para um processo qualificado de construção de ações para vida plena da juventude.

O evento conta com a parceria da Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB), Província Marista Brasil Centro-Norte (PMBCN), Coordenadoria de Juventude do Distrito Federal, Cáritas Brasileira e o apoio da Rede Brasileira de Centros e Institutos de Juventude, Adveniat e DKA Áustria.

Programação

O seminário começa nesta sexta-feira (03/05), às 19h, com oração, seguida da mesa de abertura com as presenças de autoridades e parceiros, entre eles: ministro Gilberto Carvalho da Secretaria Geral da Presidência da República, deputado federal Nilmário Miranda, coordenador de Juventude do Distrito Federal Carlos Odas, Ir. José de Assis Brito, Conselheiro da PMBCN e o assessor da CRB Nacional Frei Rubens da Motta.

Após a mesa de abertura, inicia-se o painel de exposições “Desafios frente às Realidades de Violência e Mortes de Jovens no Brasil – Uma tarefa a ser encarada pelo Estado e pela Sociedade Civil Organizada”. Para o momento, foram convidados como assessores o representante da Secretaria Nacional dos Direitos Humanos, Bruno Monteiro, e Danilo Moraes, membro do CONJUVE representando a Coordenação Nacional de Entidades Negras (CONEN).

Nos demais dias do seminário, serão desenvolvidas diversas ações e atividades. A programação contempla a construção de painel apresentando a realidade da violência contra a juventude brasileira, avaliação e planejamento da Campanha Nacional, rodas de conversas sobre temáticas acerca do extermínio e violência juvenil e celebrações.

A Campanha

A Pastoral da Juventude tem organização nacional e está presente em mais de 80% das dioceses da Igreja Católica no Brasil. Ela faz parte da articulação da Comissão Episcopal Pastoral para a Juventude, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

A organização possui algumas iniciativas que orientam os trabalhos de seus grupos e de suas instâncias. Para isso, atua por meio de seis projetos nacionais reafirmados na Ampliada Nacional de Imperatriz/MA, em janeiro de 2011, que são: Ajuri, Caminhos de Esperança, Mística e Construção, Teias de Comunicação, Tecendo Relações e A Juventude Quer Viver.

O projeto “A Juventude Quer Viver”, posiciona-se publicamente sobre alguns temas que afetam diretamente a vida da juventude, como também constrói estratégias de participação e intervenção política nos diversos setores sociais organizados (governamentais e não governamentais), buscando mobilizar a juventude pela garantia dos seus direitos.

A Campanha Nacional contra a violência e o extermínio de Jovens é uma ação articulada do Projeto A Juventude Quer Viver e de diversas organizações. Busca fomentar e provocar toda sociedade para o debate sobre as diversas formas de violência contra a juventude, especialmente, o extermínio de milhares de jovens que está acontecendo no Brasil. Com isso, a Campanha objetiva avançar na conscientização e desencadear ações que possam mudar essa realidade de morte juvenil.

A Campanha nasceu da reflexão da 15ª Assembleia Nacional das Pastorais da Juventude do Brasil, ocorrida em maio de 2008, fruto da indignação crescente presente naquela assembleia e da revolta ante ao crescente número de mortes de jovens no campo e na cidade, em todos os cantos do país.

SERVIÇO

O quê: Seminário da Campanha Nacional Contra a Violência e Extermínio de Jovens em todo o território brasileiro.

Quando: 03 a 05 de maio – abertura dia 03 de maio, às 19h.

Onde: Colégio Marista Champagnat Taguatinga - QSD - Área Especial 01 – Taguatinga Sul (DF).

Mais informações:

Thiesco Crisóstomo: (94) 8117-6210 / thiesco@gmail.com

Edgar Mansur: (31) 8839-6304 / pjbetim@gmail.com




CRONOGRAMA DO SEMINÁRIO:

Sexta, 3 de maio
18h – Credenciamento
19h – Abertura – Oração – “A Mística da Campanha”
19h30 - Mesa de Abertura – com Autoridades
20h30 – Painel de Abertura: Desafios frente as Realidade de Violência e Mortes de Jovens no Brasil – Uma tarefa a ser encarada pelo Estado e pela Sociedade Civil Organizada - Bruno – Representante da Secretiaria Nacional dos Direitos Humanos;  Danilo Moraes (CONJUVE)
21h30 – Encaminhamentos práticos para os/as participantes em vista do dia anterior
22h – Janta
23h30 – Descanso

Sábado, 4 de maio
7h – Café da manhã
8h – Mística Inicial
8h30 – Apresentação Balanço da Campanha pelo Brasil
9h30 – Considerações e percepções do alcance da Campanha até o momento (Assessora Convidada)
10h – Intervalo
10h30 – Apresentação para a Plenária dos Horizontes Temáticos de trabalho (1 -- Violência e extermínio (extermínio); 2 - Redução da maioridade penal, 3 - Segurança pública, Educação, trabalho, 4 - Violência e uso de Drogas, 5 - Aprisionamento e cárcere, 6 - Tráfico Humano (prostituição, trabalho escravo,...).
11h – Trabalho em Mini-Plenária por Horizonte Temático
13h  – Almoço
14h15 –Animação – Ou uma apresentação cultural/artística
14h30  - Plenária para apresentação dos trabalhos
16h15 – Fala da Assessora Convidada – Provocações a partir das partilhas das mini-plenárias
16h40 – Intervalo e Lanche nos locais
17h15 – Encaminhamento Trabalho por Regional CNBB – na perspectiva das Pistas para Ação
17h30 – Trabalho de Grupos:
19h – Intervalo – Banho
20h – Janta
21h – Celebração Caminhada dos Mártires – Memórias Juvenis
22h30 – Integração livre
24h – Descanso/ dormir – silêncio

Domingo, 5 de maio
7h – Café
8h – Mística Inicial
8h40 – Apresentação da sistematização do trabalho dos grupos por regionais.
10h – Intervalo
10h30 – Avaliação do Seminário
11h30 – Mística final e envio
12h - Almoço


segunda-feira, 15 de abril de 2013

Reflexão para a Semana da Cidadania 2013


Amanhã começa a Semana da Cidadania - de 14 a 21 de abril - somos convidados/as a conversar, refletir, rezar, celebrar nos mais diversos espaços (grupos de jovens, escolas, comunidades, grupos de reflexão, de coordenação, de estudos, etc) todos os anos sobre um tema específico. Este ano, de modo especial a respeito da redução da maioridade penal. 

É um assunto que, por vezes, gera desconforto e sim, é polêmico. Muitos/as na sociedade, aliciados/as pela mídia e em grande parte por falta de acúmulo e debate cai no senso comum de estigmatizar e estimular ainda mais a violência e duras repressões contra o "problema". É comum ouvir alguém dizer quando indagado/a ao assunto: "Tem de matar tudo, tem de prender, bandido bom é bandido morto", dentre outros clichês. São medidas paliativas.

Ao contrário de que alguns, ao seu bel-prazer, querem maquilar, a Igreja jamais se posiciona contra as penas. Se alguém cometeu crimes, deve cumprir, de acordo com a lei, e, dignamente, respeitado/a enquanto sua condição humana. Entretanto, é importante lembrar e procurar "imitar" a pedagogia de Jesus. Qual o caminho para ressocializar? O primeiro passo é ajudar nossos irmãos/ãs a reconhecer as falhas (cf. Jo 8, 11). Sim, não é fácil ser coerente ao que lemos no Evangelho com a prática, mas é necessário e nosso dever. O perdão é dádiva maior dos cristãos/ãs. Jesus nos lembra do ato de perdoar como um ato sublime (cf. Mt 18, 21-22), exercício em que devemos tomar consciência colocá-lo em prática.

Da mesma forma, a partir do aparente custoso gesto do perdão, somos chamados/as a comprometermo-nos com nossos/as irmãos/ãs e com o próprio Cristo (cf. Mt 25, 39), em vez de "matarmos todos" como exacerba o perene discurso da indiferença. Como testemunhas fiéis, temos tantos trabalhos muito menos espetacularizados e/ou pujantes nos espaços e veículos de comunicação. São irmãos e irmãs comprometidos/as e engajados/as na Pastoral Carcerária, nas Comissões de Direitos Humanos e em tantos espaços que se comprometem e atendem nossos irmãos/ãs encarcerados/as, tantas vezes trabalhos bem menos pomposos e tanto mais discretos e feitos com a humildade em servir.

A Semana da Cidadania, proposta pelas Pastorais da Juventude no Brasil querem gerar esse debate e nos alertar a tudo isso, no comprometimento com esses irmãos/ãs, e, sobretudo, na defesa da vida da juventude. Defesa que vem pela mudança das estruturas. Prender, punir, executar não resolve o problema e muito menos é atitude de quem se diz discípulo/a de Jesus Cristo. É preciso coragem e buscar a cada dia melhores condições de educação, de trabalho, emprego, saúde, lazer, cultura, enfim direitos básicos que não são ou minimamente são assegurados aos/as nossos/as jovens. 

Da mesma forma é preciso coerência entre nossas palavras e nossos atos e saber optar pela vida, pela compaixão e coragem, que não tem medo do conflito e com o compromisso de transformação, este, que vem do amor (cf. Jo 15, 12-14), mas não cabe a nós "escolher" a um ou outro e sim ter o amor como prática e gesto concreto de vida, sem distinção, pois somos todos/as filhos e filhas do mesmo Pai.




Abraços ternos!

Autor/Fonte: Uilian Dalpiaz - Secretário da PJ - SC

domingo, 24 de março de 2013

Preparando o Seminário... Texto #2! Segurança Pública: um novo modelo é preciso!


O Brasil tem uma população jovem aproximadamente de 50 milhões de pessoas. Ao ano, cerca de 30.000 são mortas em razão de homicídios. Este número representa mais da metade dos homicídios no País (53%). Cerca de 75% destas vítimas são jovens negros, e a maioria delas é de homens (91%), com alta incidência de mortos com idades de 20 a 25 anos.
De acordo com o Mapa da Violência 2012, produzido pelo Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos – CEBELA, o Brasil é um dos países que apresenta maiores índices de homicídios no mundo. Mesmo somando países com conflitos armados, como por exemplo, Iraque, Sudão, Afeganistão, Israel, Palestina, Paquistão, etc, não superam os números de mortes ocorridas no Brasil no período de 2004 a 2007.
Por trás de toda essa violência existem diversas causas. A formação histórica brasileira construída a partir das desigualdades sociais, econômicas e culturais são uma delas. Entretanto, mesmo com alguns avanços no enfrentamento dessas desigualdades percebemos que a violência continua presente em nosso cotidiano.
Infelizmente as trajetórias interrompidas de milhares de jovens no Brasil ainda não foram suficientes para que o Estado adote medidas efetivas e urgentes para salvar a vida da nossa juventude.  Prova disso é que mesmo diante deste lastimável quadro carecemos de uma Política Nacional de Segurança Pública.
A segurança pública no Brasil apresenta resquícios dos tempos de chumbo, sendo pautada pelo autoritarismo e pela dura repressão a um suposto inimigo interno que hoje é representado pela juventude marginalizada. Além disso, ela ainda é tratada na maioria das vezes como um assunto exclusivo das policias, afastando o cidadão/a de qualquer possibilidade de participação em sua elaboração.
Não podemos admitir que um debate tão caro para população, sobretudo para a juventude, seja tratado por poucos. O Sistema de Justiça e Segurança precisa de uma reforma urgente de modo a estabelecer outros princípios que estejam fundamentados na garantia da vida de todos/as e não na defesa do patrimônio de poucos.
Por isso, precisamos impulsionar uma ampla discussão com vista à construção de uma Política Nacional de Segurança centrada no respeito aos direitos humanos e que esteja em consonância com os preceitos de um Estado verdadeiramente democrático e de direito.
Com segurança, A JUVENTUDE QUER VIVER!
Autor/Fonte: A Juventude Quer Viver!

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Juventude aprisionada




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Padre Valdir João Silveira
Coordenação da Nacional da Pastoral Carcerária
No Estado de São Paulo, somente no mês de janeiro de 2013, foram presas 10.125 pessoas. No ano de 2012, foram 108.000 pessoas presas em SP; a grande totalidade formada por jovens de 18 a 30 anos. Esse aceleramento de prisões também se reflete em todo o Brasil.
É tempo de rever nossas ações. É tempo de a Igreja, a Pastoral Carcerária, os movimentos sociais, e todos os conselhos ligados à Justiça Penal, verificarem as suas estratégias de trabalho, pois todas as ações até o momento não têm reduzido esta chaga social chamada “encarceramento em massa”!
Mesmo com todas as ações consistentes em seminários, audiências publicas, manifestos, cartas às autoridades, denúncias das violações, trabalho em redes sociais, trabalhos com os movimentos nacionais e internacionais, sequer o sofrimento dos atingidos pelo encarceramento em massa é diminuído. São cada vez mais numerosas as pessoas pressas, os familiares, as pessoas egressas, com danos cada vez maiores não apenas a essas, que são a classe mais vulnerável do sistema, mas à própria sociedade, aflita com uma crescente violência, cujas causas verdadeiras ficam escondidas embaixo das cortinas da mídia sensacionalista e discriminatória.
Vivemos sob a regência de um sistema penal que, ao aprisionar em massa as pessoas mais pobres e privilegiar a minoria mais rica, não infringe nenhuma regra. A Constituição proíbe a pena de morte, mas, na prática, vemos, diariamente, jovens sendo executados nas periferias ou presos em unidades cada vez mais superlotadas e insalubres. A Constituição veda a pena perpétua, mas milhares de pessoas egressas do sistema prisional carregam, pelo resto da vida, o estigma de ter passado pelo violento sistema prisional, com o sério risco de se tornar novamente presa fácil das agências de controle nas periferias do país.
Em uma sociedade tão desigual, tamanho cenário de violência não admite interpretações ingênuas: as políticas de extermínio e de encarceramento em massa são, na prática, a nossa Lei a oferecer sacrifícios humanos com a finalidade de assegurar a manutenção dos bens das pessoas “de bens” da sociedade.
Ao mesmo tempo, a grande massa social, mecanizada pelos meios de comunicação, reproduz o discurso da Lei que prende e aniquila as vidas das pessoas mais frágeis, sem se dar conta do que une todas as populações pobres desse país: em menor ou maior grau, somos todos massacrados para manter e aprofundar as desigualdades geradas por um sistema em que poucos têm muito e exploram os muitos aos quais restam as migalhas e a violência do Poder Público.
Lembremos que Jesus Cristo, o justo, foi preso, condenado e executado no rigor da Lei. Está mais do que na hora de, reconhecendo nos rostos das irmãs e irmãos mortos e encarcerados o rosto de Jesus Cristo desfigurado pelo pecado. É hora é de reagirmos, nossos jovens merecem outro futuro!

Guarani Kaiowá de 15 anos é assassinado



reportagem é de Ruy Sposati e publicada no portal do Cimi
Kaiowá Denilson Barbosa, de 15 anos, morador da aldeia Tey’ikue, foi encontrado morto no domingo, 17, no município de Caarapó (MS), em uma estrada vicinal a sete quilômetros do perímetro urbano da cidade, com um tiro na cabeça. Segundo relatos de testemunhas, Denilson e outros dois indígenas estavam indo pescar no sábado, 16, quando foram abordados por três pistoleiros ligados ao proprietário e arrendatário de uma fazenda vizinha à terra indígena de Caarapó, onde foi criada uma reserva no início do século XX.
Os indígenas correram dos homens armados, mas Denilson acabou apreendido pelos pistoleiros e assassinado – segundo as testemunhas, além do tiro confirmado pela perícia criminal da Polícia Civil de Caarapó, o jovem Kaiowá levou mais um tiro na cabeça e outro no pescoço. Por questões de segurança, os nomes das testemunhas serão omitidos nesta reportagem.
Revoltados, familiares e moradores da aldeia enterraram o corpo de Denilson na fazenda onde ocorreu o assassinato, arrendada para a criação de gado e o monocultivo de soja. A comunidade também planeja realizar uma série de protestos para denunciar a ação violenta. Conforme o relato dos indígenas sobreviventes e as características da morte, os indícios apontam para execução.
Denilson, uma criança de 11 anos e outro indígena saíram no final de sábado para pescar no córrego Mbope’i, cuja nascente fica dentro da terra indígena, e que cruza fazendas do entorno. Quando se aproximaram de um criadouro de peixes, foram abordados por três homens armados. Os sobreviventes identificam os três indivíduos – entre eles, um paraguaio – como ‘funcionários’ de um arrendatário da fazenda.
Os três homens atiraram contra os indígenas, que saíram em fuga do local. Dois deles conseguiram se esconder. Denilson caiu e ficou preso no arame farpado de uma cerca. Os três homens, então, o pegaram e passaram a desferir coronhadas na cabeça e no estômago do Kaiowá, mandando que ele se levantasse. Segundo os sobreviventes, quando se pôs de pé, Denilson foi alvejado com três tiros: dois na cabeça e um no pescoço.
Fazenda evacuada
Os dois sobreviventes, ainda escondidos, viram, na sequência, os homens colocarem o corpo de Denilson na caçamba de uma caminhonete. Após a saída do veículo, os indígenas voltaram à aldeia para relatar o ocorrido à família. Impactado pela notícia, o pai de Denilson decidiu ir até a fazenda procurar o filho. Ao chegar ao local, conforme relatou, o pai do jovem assassinado não encontrou ninguém. A fazenda fora evacuada.
O corpo de Denilson foi encontrado por um caminhoneiro – segundo os indígenas, também funcionário de outra fazenda da região – que circulava pela vicinal, próxima à reserva, por volta das 5 da manhã de domingo, 17. Os indígenas acreditam que, após o assassinato, os pistoleiros desovaram o corpo de Denilson em uma estrada longe da fazenda, num entroncamento conhecido como “Pé de Galinha”.
Segundo a perícia criminal da Polícia Civil, Denilson foi encontrado com um tiro abaixo do ouvido. O laudo cadavérico do Instituto Médico Legal (IML), contudo, ainda não foi concluído. A Polícia já iniciou as investigações, mas não quis dar detalhes sobre o caso.
Segundo relatos, essa não foi a primeira vez que jagunços ligados ao fazendeiro atiraram contra os indígenas. Também, o problema da pesca é recorrente entre os Guarani e Kaiowá da Terra Indígena de Caarapó, onde vivem confinadas aproximadamente cinco mil pessoas em 3594 hectares de terra. Desde a criação do território indígena pelo Serviço de Proteção ao Índio (SPI), em 1924, os indígenas precisam pescar fora da área reservada, onde só há nascentes de córregos, mas não há peixes, sofrendo pressões e ataques de fazendeiros.
As reservas são áreas de confinamento – e depois da Constituição de 1988 uma categoria de terra indígena – criado pelo SPI durante o processo de espoliação dos Guarani e Kaiowá em decorrência da colonização do então Estado do Mato Grosso. O confinamento é apontado por especialistas como uma das principais causas dos suicídios e, consequentemente, da luta pela terra de ocupação tradicional travada pelos indígenas desde o início da segunda metade do século XX.
GuaraniKaiowa-Criança-Aldeia-Taquara-Fto-IgnacioLemus-tpCIMI – Conselho Indigenista Missionário


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